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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O Cara do Pé Chato



     Era uma vez um cara que tinha o pé chato. Ele, na verdade, era muito legal. Mas tinha o pé chato, e ninguém gostava muito dele por isso.
     Ele até tentava esconder, mas até de sapato dava pra ver. As pessoas passavam na rua e comentavam: “Nossa, nunca vi um pé tão chato! Se o pé é chato assim, esse cara deve ser insuportável!!”

     Quando caminhava na areia descalço, deixava aquela pegada que mais parecia de uma mão espalmada. Tentou cirurgia, tentou fisioterapia, mas o pé além de chato era teimoso, e teimava que era chato e pronto, tinha nascido assim, ia morrer assim.

     O cara do pé chato não sabia mais o que fazer. “Como fazer as pessoas olharem para mim de outra forma?”. Mas não tinha jeito. Com as mulheres então, era um fracasso. Não era um cara bonito, era magrelo demais, tinha pé chato e pra piorar, era careca! Não nascia nem um mísero fiozinho de cabelo em sua cabeça.

     Você poderia dizer: “E daí? Não é dos carecas que elas gostam mais?!”

     E eu te responderia: “Se ele tiver pé chato, não.”

     Um dia o cara do pé chato se revoltou. Fez as malas e resolveu que ia pra outro lugar. Um lugar onde as pessoas reconhecessem seu valor. Olhassem mais pro seu interior e não para o seu maldito pé chato. Mas na hora de ir embora, não conseguiu descobrir um lugar que tivesse pessoas assim. Ficou puto e frustrado.

     Com raiva entrou num bar e bebeu tanto, que ficou mais chato do que seu próprio pé. Tentando convencer as pessoas de que era um cara legal, apesar do pé chato, convenceu as pessoas do contrário. Então, as pessoas pararam de olhar pro pé dele. O comentário agora era: “puta cara chato, meu!”.  Assim o cara do pé chato afastou ainda mais as pessoas.

     Triste, ele olhou pro pé chato com mais atenção. E achou ele bonitinho. E a partir deste dia levou a vida de outra forma. “Tenho o pé chato, e daí?”

     Começou a mostrar o pé pra todo mundo. Fazia as pessoas rirem, contando piada falando do tal do pé chato. Ficou famoso, por ser um cara que tinha pé chato, mas era legal. Descobriu que havia mais um monte de gente que também tinha o pé chato. Não tão chato quanto o dele, é claro. Também descobriu que tinha gente que ao contrário dele tinha o pé cavo. Tão cavo que dava pra passar um bonde entre a ponta do pé e o calcanhar. E tinha gente que tinha o pé peludo. Tão peludo que precisava usar shampoo e condicionador. Tinha gente que tinha joanete, unha encravada, calcanhar rachado. Micose, olho de peixe. Tinha gente que não tinha unha no dedinho! Argh!!

     E aí todo mundo percebeu que pé chato daquele jeito, só o dele mesmo, mas pé feio, todo mundo tem.
Então passaram a olhar o cara do pé chato com outros olhos. E aí ele fez as pazes: com seu pé e com o mundo. E voltou a ser um cara legal, apesar do pé chato.


Texto: Helena Gonçalves
Ilustração: Walter "Cuco"

sábado, 24 de dezembro de 2011

nunca

amanhã, é o dia do parto,

não fico mais aqui
amanhã eu parto;

deixo minha chave da casa,
esqueço meu quarto;

pega umas coisas embaixo da asa,
deixo teu retrato;

por que, amanhã, eu parto!


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O outro lado


Nado no azul deste céu
Vôo no azul deste mar

Nuvens são ondas do céu
Encontro estrelas no mar

Vou navegar num cometa
E entre as estrelas brilhar

Feliz, flutuar, olhando
A lua cheia no mar

Depois, num sono sem sonhos
Quando o meu tempo findar

Vou mergulhar no horizonte
Onde o céu encontra o mar

Assim deixo amores, risos e dores
Para mais livre ficar

Só quero levar comigo
Quando esse dia chegar

O claro luzir das estrelas
E o suave barulho do mar

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Salão Vazio

E agora, o que fazia ali? 
Ela pergunta ao pó...
Não faz mais sentido voltar,
Diz à teia de aranha vazia na parede
Então espera, em silêncio
O eco responder...
O sopro do vento balança a cortina
E apaga a vela.
Seu coração estremece.
Reluzem no chão, refletindo a lua
Pequenos pedaços de vidro 
Aos pés de um retrato partido
Cuja foto, em preto em branco, 
Há muito desgastada
Lentamente, parecia desaparecer ...
Quem posava ao seu lado?
Não saberia mais dizer.
E isso era tudo o que restava
Daquele imenso salão abandonado.
Passo a passo, devagar, 
Sem direção, com atenção
Como se lá estivesse pela primeira vez
Alcança, finalmente
Um espelho enferrujado...
Ah! Como mudam, com o tempo
Os reflexos do passado...

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Levantar, carregar, apoiar, empurrar


Levantar, carregar, apoiar, empurrar! Levantar, carregar, apoiar, empurrar!

Ah! chega, preciso de uma folga, tomar um ar, um sol. Afinal, por que elas não podem receber luz? Nem uma janela que seja pra que pelo menos saia esse cheiro ruim. Me dá dor de cabeça.

Levantar, carregar, apoiar, empurrar! Malditas caixas. O pior é que não consigo descobrir o que protegem, não posso deixar cair e nem apoiar de outro jeito a não ser “este lado para cima”. Só tem um aviso de “frágil”.

Será que escrevendo “frágil” na minha coluna o patrão me dá um alívio? Tá, vai sonhando... Aquele lá só pensa no dinheiro, e quanto mais ganha menos paga!

Levantar, carregar, apoiar, empurrar! Ainda falta meia hora pra hora do almoço... Acho que vou ficar um pouco mais pra que a parte da tarde seja mais curta. Assim a hora de ir chega mais rápido.

Terminando essa fileira eu paro e vou tomar uma água, não aguento mais!