Era uma vez um cara que tinha o
pé chato. Ele, na verdade, era muito legal. Mas tinha o pé chato, e ninguém
gostava muito dele por isso.
Ele até tentava esconder, mas até
de sapato dava pra ver. As pessoas passavam na rua e comentavam: “Nossa, nunca
vi um pé tão chato! Se o pé é chato assim, esse cara deve ser insuportável!!”
Quando caminhava na areia descalço, deixava aquela pegada que mais parecia de uma mão espalmada. Tentou cirurgia, tentou fisioterapia, mas o pé além de chato era teimoso, e teimava que era chato e pronto, tinha nascido assim, ia morrer assim.
O cara do pé chato não sabia mais o que fazer. “Como fazer as pessoas olharem para mim de outra forma?”. Mas não tinha jeito. Com as mulheres então, era um fracasso. Não era um cara bonito, era magrelo demais, tinha pé chato e pra piorar, era careca! Não nascia nem um mísero fiozinho de cabelo em sua cabeça.
Você poderia dizer: “E daí? Não é dos carecas que elas gostam mais?!”
E eu te responderia: “Se ele tiver pé chato, não.”
Um dia o cara do pé chato se revoltou. Fez as malas e resolveu que ia pra outro lugar. Um lugar onde as pessoas reconhecessem seu valor. Olhassem mais pro seu interior e não para o seu maldito pé chato. Mas na hora de ir embora, não conseguiu descobrir um lugar que tivesse pessoas assim. Ficou puto e frustrado.
Com raiva entrou num bar e bebeu tanto, que ficou mais chato do que seu próprio pé. Tentando convencer as pessoas de que era um cara legal, apesar do pé chato, convenceu as pessoas do contrário. Então, as pessoas pararam de olhar pro pé dele. O comentário agora era: “puta cara chato, meu!”. Assim o cara do pé chato afastou ainda mais as pessoas.
Triste, ele olhou pro pé chato com mais atenção. E achou ele bonitinho. E a partir deste dia levou a vida de outra forma. “Tenho o pé chato, e daí?”
Começou a mostrar o pé pra todo mundo. Fazia as pessoas rirem, contando piada falando do tal do pé chato. Ficou famoso, por ser um cara que tinha pé chato, mas era legal. Descobriu que havia mais um monte de gente que também tinha o pé chato. Não tão chato quanto o dele, é claro. Também descobriu que tinha gente que ao contrário dele tinha o pé cavo. Tão cavo que dava pra passar um bonde entre a ponta do pé e o calcanhar. E tinha gente que tinha o pé peludo. Tão peludo que precisava usar shampoo e condicionador. Tinha gente que tinha joanete, unha encravada, calcanhar rachado. Micose, olho de peixe. Tinha gente que não tinha unha no dedinho! Argh!!
E aí todo mundo percebeu que pé chato daquele jeito, só o dele mesmo, mas pé feio, todo mundo tem.
Então passaram a olhar o cara do
pé chato com outros olhos. E aí ele fez as pazes: com seu pé e com o mundo. E voltou
a ser um cara legal, apesar do pé chato.
Texto: Helena Gonçalves
Ilustração: Walter "Cuco"
Texto: Helena Gonçalves
Ilustração: Walter "Cuco"

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